Pergunte direito!

 

Ela me perguntou assim, na cara dura, sem fazer rodeios, apesar de todo tempo que a gente não se via, mesmo com tantos assuntos a  serem postos em dia, ela não hesitou. Regurgitou uma pergunta que devia estar fermentando:

“ Você já traiu?”

Eu pisquei, dei mais uma mastigada no chiclete, e pedi detalhes:

“Como assim? “

O ônibus balançou, fez um barulho e ela depois que a pessoa sentou no banco lá no fundo repetiu:

“Se sentiu atraida , se apaixonou?Já traiu?”

Consciente do que estas perguntas significavam, sabendo que diante de mim estava alguém em crise, que não sabia exatamente o que fazer, não fui gentil, não facilitei:

“ SIM !”

Pessoas são estranhas, o olhar dela mudou, o sorriso saiu da face, os olhos perderam a docilidade, e de repente eu passei de juiz para réu. Se esqueceu que quem estava em conflito era ela, e com a voz mais preconceituosa, me questionou:

“Sacanagem, hein! Você diz assim, numa boa! Não tem vergonha, e seu marido ? Seu filho?”

Perguntar pode, sentir pode e até fazer é viável, mas assumir, ahhh isso é sacanagem! Eu sorri  cinicamente para aquele ser , minha amiga que eu tanto amo, deformada por uma hipocrisia ordinária, envolta num conflito ético, entre ser fiel á um Ogro insensível ou se envolver com uma nova oportunidade e eu é quem to na berlinda:

“Traí meus valores pra agradar  alguém, me atraí por um momento especial, por palavras de afeto, me apaixonei pela sensação de estar viva, vivi mais historias do que você imagina e em cada uma estive absolutamente apaixonada.”

Ela não entendeu, e continuou com a testa enrugada de braços cruzados :

“Nossa, não esperava isso de você. Voce sempre foi tão certinha.!”

“E não sou mais certa porque não respondi  o que você precisava ouvir para ter forças e não trair …Me poupe!” Queria ter respondido assim, mas não podia. O melhor da Língua Portuguesa é que se a pessoa não sabe se expressar claramente, você pode extrair dela segredos inimagin áveis!

“ Amei cada momento, não consigo nem me sentir culpada, como quando me apaixonei por aquela musicas ! Sabe, não sei  viver sem estar apaixonada, sou completamente passional, sangue quente…”

Quanto mais eu falava, mais ela se injuriava, e chegou num ponto em que diante de mim estava uma divindade santa e ecumênica pronta a me condenar ao tormento eterno, então achei melhor  esclarecer as coisas:

“ Por que me perguntou? Tá confusa?”

“Claro que não!!! Jamais…Sou feliz no meu casamento, não sinto falta de homem não!”

“ Ahhhhhh você estava falando de homem? Propriamente dito? Homens não tive outros, pensei que falava de amor, de vida !”

Ela bufou e riu. 

“Que susto!”

“Ou que inveja, né!Você perguntou muito vagamente.”

Caímos na gargalhada.

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2 Respostas to “Pergunte direito!”

  1. wilson junior Says:

    é complicado, acho que não perguntaria assim, de cara!!!

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