Uma professora em crise num momento difícil- Parte I

Hoje lembrei do meu ofício, sou professora, digo isto porque estive numa atribuição e não é fácil este momento. Queria estar ansiosa pelas aulas, mas não estou. Queria ficar olhando as listas e falando dos alunos, mas não fiquei. Queria mesmo, acreditar que as coisas podem se modificar, mas não acredito.

Saí de lá pensando que eu devia ter sido professora na época  em que os alunos se  levantavam em reverencia  quando se entrava na sala de aula, que paraíso….Um lugar onde eu pudesse falar sem ser interrompida, pudesse expor os enigmas da Língua Portuguesa, sem ter que gritar, parar para implorar que se desligue o celular, o mp3, guardar as revistas e etc…

 Imagine uma palmatória na minha mesa, huahauhauhauahauhau !! Viajo neste sonho psicodélico, um lugar onde cartazes podem ser colados, sem que sejam rasgados, pixados, jogados no lixo… Um imenso oásis de entusiasmo em aprender porque se tem um objetivo, uma vida pela frente e no fim ver meus alunos ser tornarem médicos, advogados,  ou até mesmo qualquer tipo de profissional honesto. Minha ilha da fantasia!!

Lembrando-me do meu ofício, relembrei os momentos bizarros pelas quais passei e que me fizeram entender o porquê  da paroxetina, litium, risperidona e etc:

  • Primeiro dia de aula no estado:

“ Subi as escadas pensando, “tenho que me aproximar da realidade dos alunos”, então seria melhor estar vestida com uma calça larga, corrente grossa no pescoço, um lenço na cabeça, e um tênis enorme com cadarços coloridos, assim poderia impor respeito, aqui é um território de ninguém, a lei é outra. Entrei na sala me sentindo o pequeno polegar, a trilha sonora era um rap, cada batida nas mesas era como uma pancada na minha cabeça, piscava no ritmo,tremia no ritmo… As mãos na coreografia eram em forma de uma arma e a canção era algo como ….Uma hk! Que coincidentemente apontavam pra mim !! Tentei invocar o espírito do “Ao mestre com carinho”, “ O clube do imperador” e etc., mas nada veio em mente. Como eu ia falar ali? Será que por favor funciona? Um gesto como o de Jô Soares para parar a banda? Enfim coloquei minhas coisas na mesa, escondi o Cd de MPB que trouxe, acho que não funcionaria naquele momento. Tirei o nó na garganta e gritei: “ PessoaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaLL!!” Uma vez, duas vezes, três vezes. Até que uma voz rompeu o ritmo da música : “Aê Fessora curte racionais?”- Pausa pro meu pensamento: Racionais ?? Não curto?!, Não sei uma musica se quer, não sei nem quem são? Nunca vi foto nenhuma!  – Desconversei, escrevi meu nome na lousa e pedi silêncio . A música parou, mas a atenção não era pra mim, uma pergunta rompe as risadas de um grupo que estava no fundo: “Fessora , vai dá visto ?”- Pausa: Visto?? O que seria isto?- Porque se vc num vai dá visto nem vo copiá!” – Ah tá visto, uma rubrica em cada caderno, se não ninguém copia a lição! Meu Deus!!!!!!

Bem sobrevivi, e descobri  um talento natural jamais exercido até em então, em meus dez anos de magistério, fazer paredes entenderem gramática, não é fácil eu admito, mas as paredes parecem tão imóveis e fixas que acabo me afeiçoando.”

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